sábado, 26 de fevereiro de 2011

ENTREVISTA: FERNANDO CALDAS.

Seguindo a trilha das entrevistas com artistas de itabuna, temos a satisfação de publicar a pequena entrevista virtual com FERNANDO CALDAS.
Filósofo, Cantor, Compositor e Escritor, Fernando Caldas é natural de Salvador. Professor e Mestre em Meio Ambiente. Foi co-fundador do Grupo Ambiental Grama, da Fundação Pau Brasil, do Núcleo de Ciências Agrárias, da UESC, da Associação Itabunense de Artistas e da Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania. Tem onze cds lançados, entre coletâneas e individuais e está gravando o seu novo CD, "Paz Profunda". Autor do livro "Amor que Mata".
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AI - O que falta para termos um núcleo artístico forte na nossa cidade e região?
FC - Segundo nossa Constituição Federal, o estado tem como obrigação o apoio às artes e às manifestações culturais. Todos os governos municipais têm sido omissos, nesse particular. Os recursos para a FICC ou para Fundação Cultural de Ilhéus são ridículos. Nos demais municípios da região não existem subsídio qualquer. No âmbito da iniciativa privada a situação é também vexatória. O empresariado da região é composto basicamente por pessoas tacanhas e ignorantes esteticamente, logo, por mais projetos que se façam - Rouanet, Faz Cultura etc. Salvo raríssimas exceções, o artista encontra sempre uma ampla e irrestrita falta de apoio. A região não possui também nenhum produtor cultural. Existe apenas a figura do comerciante de arte, agenciando atrações de outros centros com o único objetivo de ganhar dinheiro. A melhor opção do artista sulbaiano é ir embora, nos próximos 50 anos a situação tende a não melhorar. Porque milagres não acontecem e nenhum planejamento estratégico está sendo feito para que as coisas mudem.
AI - Como é a cobertura dos meios de comunicação? Há espaço para o artista grapiúna?
FC - A imprensa normalmente é generosa com os artistas. Na década de 1990, a FM Morena ganhou muito dinheiro com os cantores e compositores locais, algumas canções chegaram a liderar as paradas de sucesso. Foi uma coisa extraordinária, mas excepcional. Num modelo capitalista de mundo só vale quando há lucro, mercado e outras categorias afins. Porém, Ramon Vane não é lucrativo, nem Azulão Baiano, nem Zélia Lessa. Alguns, como Emerson Mozart, têm tentado atingir o mercado produzindo música inferior ao talento que possuem. Há também os artistas oficias, apoiados pela burguesia, como Marcelo Ganem e Valdirene Borges. O apoio da imprensa, entretanto, não faz parte de um procedimento estipulado pelas empresas de comunicação, é antes uma "generosidade", um "favor" que se presta. Voluntariamente tais jornalistas e empresas sequer frequentam os eventos locais. Aproveito o espaço para uma reflexão sobre o completo descaso da comunidade de professores da UESC com as artes e a cultura local. Chegam do sul/sudeste do país, alugam suas casas à beira-mar e ignoram completamente a sociedade que paga seus salários, através de impostos. Acadêmicos omissos e que só cuidam dos próprios umbigos, nenhum projeto sequer constroem visando alguma inserção, não vão aos espetáculos, são uns ignorantes em antropologia grapiúna. E a UESC fica pousando de importante por ter tais profissionais em seus quadros. Muita gente que tem arregaçado as mangas e trabalhado pela região não tem espaço na Universidade. Pobre UESC!
AI - A produção musical na região tem lhe agradado? Se sim, quais os artistas que ouve atualmente e tem alguma novidade que queira nos indicar?
FC - Pessoalmente eu não gosto nem do que faço. Não vejo novidades, porque novidades são difíceis de se construir. Ouço muito pouca música, quase nada. Quando ouço, é só João Gilberto, Jorge Benjor, Bonga Kuenda e Maria Bethânia, às vezes Diana Krall. Mas, nossa região tem grandes talentos, como Emerson Mozart, Marcelo Ganem, Fabiano Carillo, João Veloso, Luiz Coelho, Cláudio Gesteira, Ari PB, Kokó, Silvano, Fernando Guimarães, Jan Costa e a galera toda que faz Barzinho. Natália Roux e Adilson Nascimento são ótimos intérpretes. E tem gente como Sabará, Zélia Lessa, Edmar Tommy que fazem música de verdade. Olhe, musicalmente nós somos acima da média.
AI - Voce já participou de muitas coletâneas e já lançou onze CDs. O artista Grapiúna tem que sair daqui para gravar? E como distribuir este material?
FC - Com as novas mídias tudo se modificou. A região não possui nenhum estúdio num padrão profissional. Nossos estúdios são todos amadores. Porém, o custo de gravação num estúdio de ponta, como o "Ilha dos Sapos", em Salvador, chega a 50 mil reais, muito elevado para nossa realidade. Então, acabamos por gravar aqui mesmo e o resultado nunca é bom. A divulgação, sem dúvida, é um grande problema. O ideal é piratear a própria obra e sair vendendo pelos bares e praias. Em Itabuna, entretanto, há um rapaz chamado Adilson Vieira que deveria estar trabalhando em estúdios do Rio ou de São Paulo, pois é extremamente talentoso em produção musical.
AI - E o teatro, as artes plásticas, como está em nossa região?
FC - O teatro, dentre os gêneros artísticos, é o mais fraco de todos em nossa região. Em Ilhéus e Itabuna, hoje em dia, faz-se um teatro muito fraco, extremamente amador. Aqui, já houve uma geração maravilhosa de atores, alguns deles ainda moram na região, porém, cansaram de fazer teatro. Eva Lima, por exemplo, é uma atriz de nível elevadíssimo, poderia estar trabalhando em qualquer lugar do mundo. O mesmo vale para Alba Cristina e Ramon Vane. Tive a sorte de trabalhar com todos eles, e mais Carlos Betão e Jackson Costa. Hoje, porém, muito embora o heroico esforço de Iara Lima e Sílvia Smith (que é também uma ótima atriz) está muito difícil identificar e trabalhar bons atores. Lucas Alves é bom também. Nas artes plásticas há gente muito boa. Posso citar alguns, mas vou esquecer-me de outros. Adoro Zebay, Santal, Matheus, Aldenor, Jorge, Conceição Portela, Valdirene Borges, Renart, Osmudinho Teixeira, todos possuem padrão internacional. Temos ainda Souza, um patrimônio nosso do artesanato, além de um escultor chamado Davi (esqueci o sobrenome) que precisa ser descoberto e valorizado. Tive a honra de ser amigo do grande Walter Moreira. As grandes meninas da dança, como Dayse, Mara e Railda. Tem ainda os multimídias, Walmir do Carmo, Jailton Alves e Zélia Posidônio. com certeza ainda esqueci muita gente boa. rs.
AI - Você lançou um livro "Amor que Mata". Os escritores grapiúnas andam "bem na fita"?
FC - A região cacaueira sempre teve como carro-chefe a literatura. Após um período de latência tudo indica que entraremos numa fase de novos escritores. Agora, ser escritor na terra de Adonias e Jorge exige muita responsabilidade, não é mesmo? Hélio Pólvora, Telmo Padilha, Ciro de Mattos, Valdelice Pinheiro, Ariston Caldas, Gilnunesmaia, Sosígenes Costa possuem um talento universal. Numa geração mais recente há muitos talentosos também, como Genny Xavier, Kleber Torres, Gideon Rosas, Iolanda Costa, José Delmo, Dimas Braga, Aldo Bastos, dentre outros.
2AI - Divulgue sua agenda e projetos futuros.
FC - Estou em fase de pré-produção do meu próximo CD, chamado "Paz Profunda" e ainda esse ano lançarei "Amor que Mata", meu primeiro livro. Também pretendo realizar pelo menos um show até o final do ano.

FERNANDO CALDAS - O VINGADOR
AI – Agradecimentos:
FC - Parabéns a vocês pela iniciativa do Blog. Quem sabe o projeto não possa crescer e vocês possam vir a produzir eventos que nos envolvam a todos.


AI – Agradecemos ao Fernando Caldas pela sensibilidade de nos atender e responder a nossas perguntas.
Aproveitamos e convidamos aos artistas de Itabuna e toda a região a participarem deste blog que tem como único objetivo divulgar as idéias, agenda, trabalho dos artistas, etc.
Infelizmente há uma crítica forte por conta da falta de apoio por parte dos meios de comunicação, mas com esta nova linguagem, o artista tem que se divulgar e aqui é um bom lugar, pois não há fins lucrativos.
“Para ter apoio, temos que merecer.”


OBS: Fernando Caldas
  • Esclarecimento
    Amigos, já há algum tempo era para prestar um esclarecimento. Mas, ainda é tempo. Na minha entrevista, quando citei o fato de em Itabuna não existir a figura do produtor cultural me referi ao modelo norte-americano, quando os artistas dispõem de um agente que cuida de suas carreiras diariamente. Essa lacuna não ocorre apenas em Itabuna, mas em todo Brasil. Esclareço tal fato por que da forma como pus acabei sendo injusto com alguns produtores regionais que vêm abrindo espaços importantes para artistas locais, como é o caso de Beto Produções. Além dele acabei omitindo o excelente trabalho que Ari Produções vem prestando para a cultura local, através de produções teatrais e musicais (inclusive o meu "Show de Despedida", o de Marcelo Ganem, o Festival de Monólogos e muitos outros). Sempre tive uma admiração pela sensibilidade de Ari e sei perfeitamente do seu engajamento com os movimentos artísticos regionais e baianos. Agradeço pelo espaço para as correções e mando um abraço a Ari e Eva com minhas sinceras desculpas.


 ATENÇÃO
Os idealizadores do Blog informam: As declarações contidas nas entrevistas são de total responsabilidade das pessoas que cederam a entrevista virtual. Não cabe a nós do blog mediar qualquer discussão e nem acalentar nenhum tipo de picuinha, mas nos sentimos na obrigação de expor a opinião dos que se sentiram criticados e/ou ofendidos e esclarecer qualquer mal entendido.
O que vem a seguir é um texto recebido em nosso e-mail retrucando uma declaração do entrevistado Fernando Caldas.



Me causou uma grande surpresa uma declaração do tocador de violão Fernando Caldas, quando disse textualmente ao blog Artistas de Itabuna: "A região não possui também nenhum produtor cultural. Existe apenas a figura do comerciante de arte, agenciando atrações de outros centros com o único objetivo de ganhar dinheiro".  já que para produzir o seu Show de Despedida o " comerciante de arte e agenciador de atrações de outros centros" serviu. Até hoje, não recebi um centavo pelo trabalho que eu e meu sócio José Carlos Almeida fizemos.
É preciso que as pessoas tenham respeito pelos profissionais que fazem um trabalho sério. Não tenho a intenção de exibir meu currículo, mas diante do exposto, gostaria que os leitores do blog Artistas de Itabuna, veículo onde foi publicada a matéria, entrasse em meu blog e verificasse minha biografia, checando assim, as informações que ali estão, se são verdaderas ou falsas (biografia).
Posso até, depois de doze anos fazendo produção em todo o Brasil, não ser um produtor cultural, mas também, não preciso inventar subterfúgios para angariar fundos para me manter.
Espero que Fernando Caldas, tenha pelo menos a decência de ir embora, pois vê-lo vagando pela Av. do Cinquentenário, é deprimente para as pessoas que pagaram ingressos para ver o "Show de Despedida".

Ari Rodrigues
Produtor Cultural
Sated-Ba- 2369




3 comentários:

Manoel disse...

Curti demais a entrevista e corrobora com os comentários postados nas de Pingo e de Walmir
Essa é a terra do "Já teve!"
Qeum não quiser ralar muito para poder se impor que não venha com desculpas esfarrapadas
Complementando, a UESC perdeu o seu sentido de ser quando se tornou importadora de "NÃO-DE- OBRA", com "N" mesmo pois os atuais membros dela não tem nenhum comprometimento com quem os eleva e te dar destaque ou interesse em se fazer valer os talentos grapiúnas e quando esses vão se mostrar lá fora o SC da sua sigla confirmam que é de Santa Catarina e jamais Santa Cruz. Digo isso por que já presencie e fui questionado sobre tal origem.
Tenho mais que fazer valer meus conceitos: ou valorizamos o que é nosso ou vamos perder tudo que construímos. Esses panacas vão ter os deles depois.

Pingo Grapiúna disse...

Recebi uma mensagen de Selma Aguiar que se firma como gestora cultural, grande irmã amiga que expôs o proginôstico da situação na nossa região, e estou falando de uma cientista assim como Fernando Caldas que sempre suou a camisa em virtude de várias lutas postadas em nossa região.
Ele(assim como Selma) falou em bases mais que reais dessa vergonha que é nossa sociedade grapiuna,e o acaso me faz levar o seu nome,batizado nada mais nada menos por Ramon
Vane. Agora com esse canal de comunicação sinto que apesar de tudo não paramos, já sentimos na pele demais e não deviamos deixar barato, aindo sinto aquele orgulho besta de ser dessa terra.
Obrigado Fernado Caldas por está aqui!

Silvano disse...

simplesmente show,sem palavras,esse é o cara.