quinta-feira, 2 de junho de 2011

ENTREVISTA RITA SANTANA.

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Rita Verônica Franco de Santana (Rita Santana) nasceu em Ilhéus, Bahia, a 22 de agosto de 1969. É graduada em Letras com habilitação em língua francesa pela Universidade Estadual de Santa Cruz.
A Atriz atuou em algumas peças infantis, com destaque para PLUFT, O FANTASMINHA, de Maria Clara Machado, com direção de Pedro Mattos (Ilhéus - 1987/89), interpretando a Mãe de Pluft. Participou de recitais de poesia e feiras culturais no interior da Bahia, explorando o teatro de rua, ao ser uma das fundadoras do grupo “Caras e Máscaras” (Ilhéus - 1990/95). Integrou o elenco de DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS, adaptação do romance homônimo de Jorge Amado, com direção de Fernando Guerreiro (Ilhéus/Salvador - 1992), interpretando Dionísia de Oxóssi. Integrou o elenco da primeira fase da novela RENASCER, produzida pela Rede Globo de Televisão (1993), interpretando a personagem “Flor”. Pequena participação no filme TIETA DO AGRESTE, de Cacá Diegues (1995), interpretando a personagem Tonha (jovem). Integrou o elenco de ERA UMA VEZ UMA MATA, espetáculo infantil de Rita Brito, com direção de Jorge Borges (1998), vivendo a Caipora. Integrou o elenco da montagem FAUSTO ZERO, clássico de Goethe, no Teatro Vila Velha, com direção de Marcio Meirelles (1999), representando Margarida, a amada de Fausto. Integrou o elenco do curta PIXAIM, sob a direção de Fernando Belens (2000), interpretando Adalice. Participou do longa ESSES MOÇOS (2002), dirigido por José Araripe, interpretando Marli. Participou do longa EU ME LEMBRO (2002), dirigido por Edgard Navarro, onde interpretou Lene.Integrou o elenco do episódio “O VESTIDO DE OTÁLIA”, produzido pela TV Globo e dirigido por Sérgio Machado, interpretando a mulher de Cravo na Lapela, em 2002.
A Escritora: publicou seus contos no Diário da Tarde, de Ilhéus e no suplemento cultural do jornal A Tarde, de Salvador; foi uma das coordenadoras do projeto Universidade em Verso na UESC (Universidade Estadual de Santa Cruz); 2004 publicou o livro de contos “Tramela” através da Fundação Casa de Jorge Amado, com o prêmio Braskem de Cultura e Arte - Literatura – 2004, para autores inéditos. Em 2005 participa da antologia “Mão Cheia”. Em 2006 publica o livro de poesia “Tratado das Veias”, através de seleção feita pelo selo As Letras da Bahia, Fundação Cultural do Estado. Em 2005 participa da Bienal do Livro da Bahia no projeto Porto da Poesia, organizado pela revista Iararana; em 2006 consta do Dicionário de Autores Baianos, uma publicação da Secretaria de Cultura; 2007 participa da bienal do Livro da Bahia no Café Literário; tem poemas publicados nos sites: http://www.germinaliteratura.com.br/ e no http://www.escritorassuicidas.com.br/ ; em homenagem ao dia Internacional da Mulher publicou na Folha Literária o poema Armada. Em 2009 – Participa da agenda Brasil Retratos Poéticos 2010, Ed. Escrituras, cuja seleção de textos é de José Inácio Vieira de Melo e da antologia poética Diálogos – Panorama da nova poesia Grapiúna (Org. Gustavo Felicíssimo).
Rita Santana
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AI – Hoje, muitos querem ser artista, com tantos artistas na praça tem produção o bastante para absorver tantos artistas?
RS - Eu não sei falar de mercado. O artista não precisa de mercado para existir. Ele existe ou não e, existindo, pode ou não ser absorvido pelo mercado. Ser artista é uma forma criativa e legítima de fugir da realidade e, ao mesmo tempo, de enfrentá-la, tentando traduzi-la. Entretanto, só permanecem no desejo os que sobrevivem às adversidades, ao anonimato, ao insucesso.
Quando fiz teatro aí na Região, nossas produções eram mambembes, amadoras, sem patrocínio. Inventávamos a produção possível no grupo de teatro que fundamos em Ilhéus - Caras e Máscaras - ou seja, a produção necessária para a expressão dos nossos desejos. Éramos audazes e, assistíamos aos espetáculos que chegavam sempre estabelecendo paralelos e, quase sempre, nos surpreendíamos com a qualidade das nossas metáforas, das nossas montagens, dos nossos textos.
Hoje há também uma mudança no perfil do artista. Ele é produtor, participa de editais públicos, dirige, monta o espetáculo, atua, capta recursos, participa de cooperativas, divulga na net. O ator é mais independente hoje. Para existir, independe de ser ou não apreciado por um diretor. Ele não espera um convite, ele faz o convite. Infelizmente eu não tenho esse perfil, por isso escrever é tão fundamental na minha vida. É solitário, adaptado ao meu tempo, ao meu trabalho e à minha natureza.
AI – Enquanto não se consegue sobreviver somente da arte, o que o artista tem que fazer?
RS - Desde sempre eu tive a preocupação com a minha sobrevivência. Venho das camadas populares da sociedade, portanto, a necessidade de crescer, estudar, ter emprego sempre gritou dentro de mim. Era preciso! Sempre tive uma ligação muito grande com a Universidade e um respeito muito grande com o papel que a FESPI e a UESC desempenharam na Região. Fiz Letras porque muito cedo soube que para a minha libertação, o nível universitário seria imprescindível. A artista nunca me impediu de pisar firme no chão, nem mesmo nos momentos mais fulgurantes da atriz. Os exemplos de artistas que acabaram na sarjeta eram muitos naquela época, em todo o Brasil. Isso sempre me assustou. Amar o conhecimento foi facilitador, afinal o prazer que sinto com os estudos permitiram que eu tivesse um emprego, certa segurança numa profissão que dialoga com as artes, com a leitura, com a escrita que é o magistério. Apesar de não sermos valorizados.
Ter um trabalho, ter um vínculo profissional com a área escolhida era a única forma de fazer a minha arte e existir. Alguém precisava pagar as minhas contas, meus delírios, e meus pais não poderiam assumir essa carga, pois já tinham cumprido com o seu papel. Deram os instrumentos e a partir daí, era comigo. Ingressei, em 1991, na rede Estadual de Educação como professora de Língua Portuguesa. Ensinar é estar em contato com a teoria e a prática; é poder exercer a leitura e difundi-la, provocá-la. A professora e a escritora/leitora/atriz caminham juntas.
Observo que muitos dos meus companheiros de sonhos, artistas da Região, cantoras e atrizes também seguiram esse caminho: estudar, ensinar, ter um meio de sobrevivência, conseguir passar em algum concurso. A educação ganhou com isso: artistas valorosos estão em sala de aula, dando ao aluno a possibilidade de sonhar um pouco, de vislumbrar a beleza da Literatura, da Filosofia, da Biologia. São grandes artistas mesmo que estejam longe do palco. Indubitavelmente a Música e a Poesia orquestram esses momentos com os alunos, além da consciência crítica desperta a incomodar os conservadores, caretas, preconceituosos. Esses artistas serão sempre artistas aonde quer que estejam. O importante é não sucumbir à tristeza, à frustração e ao desânimo. Mas cada um busca o seu caminho. Não há uma receita, nem garantia de felicidade.
AI – Como fazer para vencer o desinteresse dos empresários em arte?
RS - Não me preocupo com os empresários! O que me preocupa é a Política. A ausência de políticas públicas sérias para os espaços existentes na Região inteira. A ausência de pensamento intelectual em torno das manifestações culturais dentro das prefeituras e, por conseguinte, dentro das Secretarias de Cultura. As nossas cidades estão abandonadas. Não gosto do saudosismo porque é improdutivo, mas já vivemos tempos mais férteis quanto a projetos artísticos na Região, quanto às políticas públicas na educação e na Cultura. O que vivemos hoje é um retrocesso histórico, político em Ilhéus e Itabuna.
A qualidade dos nossos políticos é assustadora, lamentável. São responsáveis pelos jovens, artistas ou não, que abandonam a Região em busca de espaços, de trabalho, de movimentação cultural em outros lugares. Isso passa necessariamente pelo prefeito eleito, o seu comprometimento com as manifestações culturais, com os artistas, com a população e a juventude. É dolorido ver Ilhéus abandonada e Itabuna tão aquém dos projetos e propostas que já tivemos no passado, e que eram questionados, discutidos e transformados por muitos de nós.
Havia uma participação maior do artista porque o terreno era mais fecundo a divergências, à participação, à construção. Isso é inacreditável! De qualquer forma, não estou morando aí e não posso dar um depoimento mais preciso, são apenas as minhas impressões advindas de conversas com alguns produtores, artistas e também o meu olhar diante do que encontro quando vou aí para eventos que ocorrem apenas pela ousadia dos artistas. Mas também é o meu olhar para uma Ilhéus linda, que eu amo e que está suja, abandonada, distante do seu título de Princesinha do Sul tão lindamente cantada por Reizinho.
Portanto não faltam espaços, eles existem. O que falta é política para mantê-los equipados, funcionando, atendendo à comunidade local com mais respeito, com projetos que partam da própria comunidade artística, porque só ela sabe o que precisa! É preciso auscultar a alma sequiosa do artista porque ela é Profética e Sábia. Espaços para que os artistas digam o que querem, precisam e sejam atendidos, é tão simples.
Estive em Ilhéus no 1º Festival de Cinema Baiano e fiquei orgulhosa com o evento. Promoveu a cidade, movimentou e divulgou o seu nome entre os cineastas que foram ou enviaram os seus filmes. Os participantes do evento até hoje comentam a importância e a organização com que aqueles jovens promoveram a divulgação dos filmes baianos. Vi funcionários do Teatro Municipal de Ilhéus emocionados após a exibição de alguns filmes. Filas na porta do cinema, discussão séria sobre o filme após a sessão. É preciso envolver e tocar todo mundo através da arte.
É necessário que os empresários sejam convocados pelos poderes públicos para participarem das políticas culturais, dos eventos. O evento de cinema foi um marco para a cultura e deve ser incentivado, deve ser apreciado como uma possibilidade real de investimento em turismo, em socialização das nossas produções. É um diálogo produtivo com a juventude que saiu da UESC mais instrumentalizada para as novas tecnologias, mais preparada para a profissionalização da produção cultural e artística.
Adorei que tivesse sido em Ilhéus! O cenário era perfeito, lindo como a cidade. Mas sei que Itabuna tem tradição em eventos culturais importantes, às vezes saía de Ilhéus para eventos em Itabuna porque havia uma peculiaridade na plateia que sempre me encantou. Uma formação artística que sempre fez a diferença. Com mais apoio, mais editais, mais financiamentos públicos, os empresários também virão. É claro que a educação dos empresários é necessária para que entendam que estão trocando e não dando esmolas para os artistas e organizadores, é um processo lento e que deve ser recomeçado. Nem todo mundo nasce com o olhar de Marcel Leal.···.
AI – Faltam espaços para que o artista se apresente aqui na região?
RS - Somente os artistas que estão vivenciando a realidade de Itabuna podem responder. Mas, como já disse os espaços que já existem são bons e 000025precisam ser repensados, equipados, cuidados para que os artistas e a população possam produzir ensaiar, assistir a espetáculos. O espaço para ensaios é primordial. O apoio às produções também.
AI – Quando houve o “estalo” para que você se decidisse a ser artista?
RS - Houve um estalo com o padre Antônio Vieira, a partir de determinado momento ele se tornou mais inteligente, iluminado. Dizem que foi coisa da Virgem, mas comigo não houve um estalo, não. Foi um processo lento, um contato com a beleza nos livros didáticos, contato com espetáculos nas escolas. Até acontecer no Ensino Médio uma revolução na cabeça de muitos de nós que participamos de tudo aquilo. Houve uma greve de alunos porque Jabes Ribeiro havia demitido professores respeitados e queridos pelo corpo discente da escola. Naquele momento, tivemos que tomar o microfone, fazer discursos, e eclodiu uma consciência naquela juventude que já vinha se consolidando dentro da própria escola.
Atividades do Movimento estudantil incluíam também teatro e começamos a fazer teatro dentro da escola. Fundamos a Companhia Talentos da Terra (CTT), que depois chamou a atenção de Pedro Mattos. Era um momento de descobertas e o Circo Folias da Gabriela virou nossa Casa. Passávamos verões escaldantes debaixo da lona ensaiando espetáculos, que às vezes nem estreavam. Ver os atores de Itabuna na rua sempre foi um motivo inspirador, uma provocação às nossas vontades: Ramon Vane, Eva Lima, Jackson Costa, Betão, Alba Cristina, Marcos Cristiano, Gal Macuco, José Delmo, todo o pessoal do Grupo de Arte Macuco.
O Caras e Máscaras, grupo do qual sou uma das fundadoras, foi o resultado desses processos todos. Uma grande experiência com muitos atores, pessoas fabulosas que passaram por lá – minhas irmãs inclusive - e deixaram suas histórias, suas marcas. Por fim, já éramos apenas eu, Tereza Damásio, Jorge Batista e as irmãs Tereza Sá e Telma Sá. O grupo deu lastro para as viagens futuras. Grande aprendizagem.
AI – São vários os artistas baianos que estão presentes em produções televisivas nacionais, tem como o artista sair direto da região para estas produções ou tem que passar na capital baiana?
000030RS - São tantos os fatores que determinam esses destinos. Observo que um número cada vez mais crescente de atores resolve ir embora para o eixo Rio/São Paulo porque facilita para a vida da produção. Morar por lá facilita o acesso aos testes, lugares, possibilidades. Morando aqui tudo fica mais difícil em relação às produções televisivas.
Acontece que nem só de televisão vive o ator. É bom ter reconhecimento pelo trabalho, é claro. Mas muitos atores que estão em Salvador e estão no mercado, conseguem realização profissional aqui mesmo, até porque o que muitos artistas querem é apenas estar no palco encenando e realizando personagens; alguns conseguem viver de teatro, o que é maravilhoso. Muitos que permaneceram aqui fazendo teatro conseguiram destaque em produções recentes da Globo.
Outros foram e voltaram sem conseguirem os sonhos televisivos. É complicado! A capital baiana, supostamente, abre mais caminhos, mais espaços, pois a Escola de Teatro da UFBA está aí e ela é importante. Fábio Lago não fez Escola de Teatro, a sua escola foram os palcos. No entanto, conseguiu visibilidade. Não há receitas! Nada disso é garantia de nada.
Acho que o tamanho do sacrifício que o artista está disposto a fazer em nome do sonho também pesa. E ele não é pequeno! Às vezes funciona e às vezes não.
AI – Possível citar os artistas, considerados por você, eternos e revelações?
RS - Não. Prefiro não listar, pois cometeria ausências imperdoáveis, além de citar inúmeros nomes porque o meu critério de eternidade passaria pelo talento e a marca que tantas pessoas deixaram dentro da minha alma. Não necessariamente o sucesso na mídia.
AI – Algo a acrescentar a este nosso bate-papo virtual?
RS - Quero deixar o endereço do meu blog para os amigos que queiram falar comigo, ler meus textos. O nome dele é Barcaças. O endereço é: barcaças.blogspot.com.
09 – quais as novidades, projetos que prepara para a região?
000032RS - Espero a publicação do meu livro Alforrias que sairá pela Editus. É um projeto especial porque os poemas são de natureza mais sucinta e profundamente belos. Aguardo o livro há algum tempo, fico feliz que saia pela Editus porque a UESC é a minha Universidade, propalo seu nome aonde vou. Sou apaixonada pela Instituição. A espera, entanto, desespera, angustia. Às vezes penso que morrerei sem ver o livro. Isso porque sou uma atriz dramática. Há o lançamento do filme de Pola Ribeiro O Jardim das Folhas Sagradas, que será em breve, onde interpreto uma personagem chamada Eugênia. Personagem secundária, mas muito especial, adorei fazê-la. O filme é esteticamente belo e politicamente necessário.
AI – agradecimentos.
RS - A vocês pelo convite e a todos os artistas, músicos, atores, diretores, público, professores cujas vidas cruzaram com a minha. Um abraço forte a todos.
Rita Santana
http://barcacas.blogspot.com/
Barcaças


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2 comentários:

lucas oliveira ator disse...

rita santana é COISA NOSSAAA!! MANDOU BEM HEM !1MUSA DAS LETRAS,DAS ARTES CENICAS,DA EDUCAÇAO !!DO CINEMA E DA TELEVISAO!!TE AMO CAMBIO SEU FÃ!!

Ozania Alves Figueiredo disse...

Nossa professora, já vi que você arrasa com seu olhar de poeta, parabéns por suas conquistas e pelo sucesso.
Que DEUS continuem sempre iluminando o seu caminho, fazendo de ti uma pessoa melhor, e que possa ajudar a quem precisa de tuas palavras.
Com muito amor, sua aluna e sua grande fã, Ozânia Alves.